24 de ago de 2011

CONVOCADO

            Sempre imaginei cuidar de filhos fosse igual que os pássaros, ou seja, acalentam no ninho enquanto filhotes, mas, quando começam a dar sinais de se sentirem independentes, leva para a ponta do galho e dá um empurrão para voarem sozinhos. E acho que deu certo, já que todos completaram seus estudos, prestaram exame vestibular e foram aprovados para cursos universitários, que nem todos concluíram, mas deram à vida o rumo escolhido por eles.
            Minha primogênita Valeria, essa mesma que divide as paginas do Tribuna comigo, depois da cursar algum tempo Jornalismo na UFRJ foi passar umas férias em Uruguaiana e por aí ficou. Agauchou-se... E hoje acho até que se imagina nascida por essa bandas do sul. Largou a faculdade, mas não abandonou seu ideal de ser jornalista indo trabalhar como repórter em uma emissora local de televisão. Casou. Descasou. Voltou para o Rio de Janeiro.
Um dia em Cuiabá, onde eu fazia a produção de um filme Avaeté – A Semente da Vingança encontrei com o proprietário de uma das emissoras locais de TV, casado com a filha de um amigo meu de Ponta Porã, MS, onde eu havia morado tempos atrás. Durante a conversa ele me disse estar procurando uma nova repórter-apresentadora para sua emissora. Sugeri então o nome da Valéria e, não sei se influenciado pela amizade ao seu sogro, ou por já estar com algum uísque na cuca, o cara topou.
– “Chama tua filha, mas ela tem de estar aqui depois de amanhã”.
...E dois dias depois minha cria pousava lá em Mato Grosso onde acabou por fincar raízes fazendo carreira como jornalista e, mais tarde, como cineasta. Chegou, viu e venceu. Ainda hoje sede da nossa produtora, del Cueto – Assessoria e Produção está situada em Cuiabá.
Mas como a guria tem bicho-carpinteiro há dois anos veio a Uruguaiana visitar a família, reencontrou antigos companheiros de trabalho, o Fred entre eles, e eis que volta para o rio de janeiro com idéia inopinada:
- Vamos escrever num jornal de Uruguaiana.
- Vamos... vamos quem, cara-pálida? Você vai. Porque eu vou escrever num jornal que nem sei que cara tem?
- Porque eu já prometi pro Fred que ias escrever... então, vais!
- Vou coisa nenhuma. Tenho mais o que fazer do que...
- Ah, paizinho, deixa de ser chato! O que custa escrever uma laudinha por semana para o pessoal da tua terra?
- Ô Crioula chata! (Atenção os politicamente-corretos. Crioula é a maneira carinhosa com que trato minha filha mais morena. Isto desde os tempos em que tal uso não configurava crime de racismo). Está bem... mas vou escrever sobre o que? Fazem mais de quinze anos que não boto os pés naquela fronteira.
- Então... Então escreve sobre o tempo em que vivias por lá. Conta tuas lembranças...
- Lembranças... todas? Posso falar o que quiser?
- Podes!
- Então está, vou escrever, mas depois não me venham reclamar se meus relatos vierem a macular alguma biografia. Coisa assim do tipo: “Conheci muito a senhora sua mãe...”
- Nem te mete a fazer isso. Todo mundo te conhece na cidade e arriscas tomar uns tabefes no dia em que apareceres por lá. E mesmo a tua fama não é das melhores.
- Coisas da oposição...
- Pode ser, mas tem gente que conta historias, molecagens, onde estas sempre envolvido.
- Tudo invenção. Como estou ausente ha muitos e muitos anos virei folclore e fica mais fácil colocar na minha conta pessoal a culpa de todas as safadezas.
Mesmo assim, depois de muita discussão terminei capitulando e aceitando a convocação do Tribuna. Confesso não me arrependi. Só assim pude voltar este ano às barrancas do Rio Uruguai... e já estou com saudade do povo daí.

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