14 de mai de 2009

CONTANDO OUTRA...

 

Depois de quase duas semanas no Nordeste cá estamos de volta ao Rio de Janeiro e às páginas da Tribuna para mais uma “charla” com o povo da fronteira oeste do Rio Grande do Sul.

O 4º CINEPORT, em João Pessoa, capital da Paraíba, teve um resultado acima das expectativas congregando lá cineastas e artistas de todos os oito países de língua portuguesa vindos de três continentes colonizados pela gente luza que exibiram o melhor de seus últimos trabalhos audiovisuais. Foi para este escriba uma grande honra ter feito parte do júri do Premio Energisa de Estimulo ao Audiovisual Paraibano que concedeu vinte mil reais ao melhor curta produzido no estado.

Ao constatar o crescimento do Cineport, que acompanho desde a sua primeira edição ainda na cidade de Cataguases, Minas Gerais, me animo imaginar se não seria possível realizar algo semelhante em Uruguaiana. Poderia ser, talvez, uma “Mostra Audiovisual Missioneira”, reunindo produções da região de cultura missioneira do Brasil, Argentina e Paraguai. Acho bom pensarmos nisso...

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Viajando para o nordeste em aviões da Gol e voltei convencido que os gaúchos precisam se movimentar para evitar o uso da marca VARIG pela turma daquela empresa. Agora eles se apresentam como Gol - Varig com serviços que nem de longe lembram os da antiga empresa gaúcha. Em suas aeronaves viajasse com um mínimo de conforto, espremidos em poltronas apertadas, e com alimentação racionada à base de micro porções frias. Todavia ressalto que, apesar de tudo, as tripulações são muito competentes e corteses, mas isso seria, talvez, por serem remanescentes da velha Varig. Já o serviço de terra...

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Não sou muito chegado a reminiscências do tipo “bons tempos aqueles que não voltam mais”, mas, como o cronista tem de por no papel aquilo que se público pede (andaram me falando que tenho um público leitor de meus escritos) volto a reviver historias de meus tempos mais remotos quando morava onde hoje ainda é a loja das Casas Pernambucanas.

Bem ali ao lado, na Bento Martins, ficava o casarão da família Velo com suas sacadas quase ao nível da rua e um imponente porta de madeira maciça que, a exemplo de outros casarões senhoriais da cidade, nunca era fechada (pelo menos durante o dia). Um belo exemplo da arquitetura do inicio do século passado, com um pé direito muito alto e um hall de entrada em mármore cercado por duas portas laterais e, ao fundo, outra porta de vitrais coloridos que levava à sala de visitas. A propriedade dos Velo se estendia com um formato de letra L, até a Domingos de Almeida onde havia um grande portão que levava aos fundos da casa. Era esse portão que servia de goleira para nossa linha de passes na calçada da rua e por onde, ás vezes, a gurizada da casa fugia para desespero de Dona Lucila, a matriarca da família.

Dona Lucila Velo era, por assim dizer, a preceptora ou educadora de toda a criançada da vizinhança e mais outros que, mesmo morando longe, lhe freqüentavam a casa cujas portas nos estavam sempre abertas desde que nos submetêssemos ao “sistema” da dona. Por isso, às vezes nos brindava com castigos e, muito raramente, com uma vara de marmelo que guardava atrás da porta do seu quarto.

A todos nós tratava como seus próprios filhos e sobrinhos sem que nunca nenhum pai ou mãe reclamasse.

No bandinho as idades variavam da adolescência ao recém saídos da barra da saia das mães. O castigo mais temido por todos, a pena máxima, não eram as tão prometidas varadas e sim ter de ficar sentado na sala de costura, que ficava numa varanda interna, onde todos, meninas e meninos, eram obrigados a aprender a fazer tricô sob o olhar vigilante de Florinda, uma de suas várias auxiliares domestica.

Quis o destino que num dia de vento propicio a levantar pandorgas estivéssemos todos os meninos semi-reclusos por havermos quebrado uma vidraça durante o bate-bola no portão dos fundos. Alvarito, que era o mais velho de todos e havia preparado uma bela pandorga, fugiu. Ao tomar conhecimento disso dona Lucila tomou suas providencias: Trancou o portão e se postou na sala da visitas de onde através dos vitrais poderia divisar, ainda que não nitidamente, que adentrasse ao hall.

Sendo a dona da casa e a família muito religiosas era comum a visita de padres seus amigos e dentre eles Frei Daniel, um carmelita baixinho, rechonchudo e simpático. Como toda a gente ninguém batia na porta de entrada, ia direto a porta de vitrais e entrava sem pedir licença. E foi o que aconteceu....

Dona Lucila, na espreita já há algum tempo armada de uma vassoura, não vacilou: Ao ver aquele vulto entrar na penumbra da sala meteu-lhe a vassoura: - Seu sacana! (Esse era para ela o maior palavrão) Isso é para aprender a não fugir prá rua!

Quando Frei Daniel por seu habito religioso foi identificado já havia levado umas boas vassouradas para desespero e vergonha da dona da casa.

Se a historia não foi bem assim, me perdoem, afinal eu era muito guri e a maior parte daqueles que poderiam testemunhar já subiu para o andar de cima.

“Esta contada minha historia, verdade ou imaginação...”

Quem souber que conte outra.

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