2 de fev de 2009

OLHA O SAMBA AÍ!

O povo uruguaianense continua apaixonado por carnaval e nas páginas da “Tribuna” acompanho os preparativos para a folia anual. O movimento é grande nas escolas de samba de toda a fronteira oeste gaúcha e até na margem direita do Uruguai com ensaios, concursos, apresentação de figurinos e tudo aquilo que envolve o desfile.
Ainda o outro dia li que as escolas iriam, numa grande festa, apresentar suas harmonias... Harmonias? Fiquei aqui matutando, tentando entender como se poderia apresentar a harmonia de uma escola de outra maneira que não durante o desfile principal. Segundo sempre soube, harmonia envolve o desenvolvimento, o desempenho dos participantes, a fluidez do todo o conjunto da escola durante o cortejo. Inclui-se ai, ainda, o canto do samba enredo, a evolução das alas, o tempo de desfile, enfim tudo aquilo que se espera de uma escola de samba aqui no Rio de Janeiro. Já sei que alguém vai contestar dizendo que harmonia no Rio Grande do Sul é outra coisa. Vá lá que seja, desde que se considere o carnaval gaúcho um outro samba, uma outra coisa que não uma escola de samba tradicional. Até que me convençam disso continuo sem entender a “harmonia” do sul.
O que também me intriga é a ausência de valores locais nos postos chave dessas escolas: Mestre-sala, porta-bandeira, compositores de samba enredo, madrinhas e diretores de bateria e até mesmo fantasias. Tudo isso, ao que parece, é importado dos grandes centros gerando uma disputa, quanto mais não fosse, descabida entre as sociedades locais. E tome de fulaninha da Beija-Flor, beltrano da Grande Rio, samba enredo de cicrano da Portela... E o desfile é em Uruguaiana, na beira do Uruguai, terra onde, transplantado do Rio pelos fuzileiros navais, surgiu em meados do século passado o novo carnaval gaúcho. Até então a folia nessas plagas era animada pelas comparsas, sociedades e cordões carnavalescos. Nos salões brilhavam o “Pichiche”, o “Big-Ben”, o “Pif-Paf”, blocos da classe alta e média e nas ruas reinavam absolutos os populares “Cordão de Ouro” e o “Laço do Amor”.
Do “Laço” é justo lembrar a figura do Canoa, o Pepe Caravana, que sempre abria seu desfile como balisa ou remelexo como se denominava aquele que pedia passagem para o préstito. Alguém num artigo falou dele como tendo sido um andarilho e isso ele, pelo menos para mim que o conheci como changador na esquina da Pernambucana, nunca foi.
Com a chegada do Batalhão de Fuzileiros Navais inspirados no seu bloco carnavalesco – “Os Filhos do Mar” - surgiram blocos caricatos como “A Falsa Baiana” e “Marumbi”, tentando pela primeira vez se entender com um ritmo chamado samba enredo batucado em tamborins feitos de caixetas de goiabada. Tanto tentamos e acho que aprendemos, fazendo crescer aqui a raiz das escolas de samba gaúchas.
A Porto Alegre a influência chegou depois. Naquele então ainda reinavam absolutos as tribos, as sociedades (até hoje as escolas mais antigas de lá ainda se denominam “Sociedade Carnavalesca”) e os blocos como o “Canela de Zebu” e a “Banda do Faxinal”. E no carnaval não pensavam em nada parecido com desfile de escolas de samba..
Observando isso tudo a distância me preocupa o rumo que vai sendo tomado pelo carnaval uruguaianense - segundo um cronista da terra: O terceiro do Brasil. O uso de importar o subproduto, ou até mesmo os valores, dos grandes centros a peso de ouro (sim porque ninguém irá me convencer que essa turma sai daqui do Rio para desfilar ai na fronteira a troco de nada) com o tempo abortarão o aparecimento de talentos locais que poderiam incutir personalidade ao carnaval uruguaianense fazendo dele uma festa verdadeiramente popular e não uma visão minimalista do desfile carioca. Um compacto importado do Rio de Janeiro.
Carnavalescos, pensem nisso antes que seja tarde demais.

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