25 de jun de 2010

O GALÃ

Em meados do século passado, quando os trens a vapor ainda cortavam o interior gaúcho, cada viagem significava sempre um acontecimento na vida de quem deles fazia uso. Meu pai, Rafael del Cueto, sendo gerente geral das Casas Pernambucanas na fronteira era responsável pelas filiais de Itaquí, São Borja e Quarai e também pelos Postos de Vendas da Barra do Quarai e de Uruguaiana, este situado bem defronte a velha estação da BGS – British Great Southern – a antecessora da VFRGS – Viação Férrea do Rio Grande do Sul – ou como diziam os gaiatos da época, Vinte Frescos Reunidos Grande Sucesso.

Suas funções incluíam visitas a todas as filiais e postos de vendas o que o obrigava a passar dias longe da família, Mas eram ausências pequenas ainda que muito sentidas por todos nós. Eu, interesseiro, esperava ansioso por seu retorno, em parte pela saudade mas ainda mais pelos presentes que sempre me trazia, que não eram nada demais. Apenas pequenos brindes recebidos de seus fregueses e pelas historias de suas aventuras que contava, sempre sério.

Anualmente as Casas Pernambucanas eram visitadas por fiscais vindos geralmente do Rio de Janeiro e sempre objeto da admiração de todos por serem Cariocas. Essa definição criava em torno deles uma aura especial. Afinal, eram nascidos na capital do pais daquela época. E se isso impunha respeito em torno de sua figura atiçava ainda mais os sonhos das moçoilas casadoiras.

Os fiscais eram, por assim dizer, a nata dos caixeiros viajantes - vendedores das grandes empresas que atendiam seus clientes nos mais longínquos rincões, quase todos jovens e se acreditando galãs irresistíveis para a alegria das meninas e desespero dos pais de família.

Foi um “Rodolfo Valentino” desses da época que, um belo verão, apareceu aqui pela fronteira. Meu pai acompanhava um fiscal das Pernambucanas na sua visita anual a São Borja e o moço, hospedado no mesmo hotel que eles, buscou logo sua amizade e, nas conversas durante as horas de folga, gabava-se de suas conquistas amorosas. Na verdade o sujeito era muito bem apessoado, simpático, comunicativo e envergando sempre belos ternos de linho branco – era um verão daqueles quentes como só acontecem às margens do Rio Uruguai. A única coisa que incomodava no rapaz era sua incomensurável gabolice. Para ele não haviam mulheres capazes de resistir ao seu charme e elegância. E a “hora do lobo” do cara, quando partia para a caça, era antes do jantar quando se enfatiotava e saia, como dizia, para um galope de apresentação. Tanta bazofia terminou por irritar meu pai e o fiscal.

Quem conheceu meu velho deve lembrar dele como uma figura séria, incapaz, por assim dizer, de uma brincadeira de mau gosto. Quem o julgou assim errou redondamente, o Rafael era capaz falar e fazer as maiores molecagens sem mostrar um sorriso no seu rosto.

Um certo dia o caixeiro viajante não apareceu para o almoço no hotel. Depois da refeição estava meu velho com o colega na porta do hotel quando chegou a entrega da lavanderia para o gabola, um terno de linho S-120 estalando de engomado e eles, gentilmente, se ofereceram para levar a roupa até o quarto do ausente. Naquela época não havia tantos ladrões…

No fim da tarde, como faziam sempre, se encontraram na praça antes de irem para o jantar. O caixeiro vinha descendo a rua já no seu lindo terno de linho mas, inexplicavelmente, cercado por uma matilha de cães que se enroscavam entre suas pernas e que aumentava a cada passo. Por fim desesperado o galã bateu em retirada seguido pela cachorrada algariada debaixo das gargalhadas e vaias do populacho.

A causa dessa tragédia foi terem os dois “pernambucanas” encontrado uma cadela no cio e esfregado nela a bainha da calça do conquistador. Acho que ele nunca mais voltou por aquelas bandas.

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