18 de out de 2009

MARIO PINTO NAS TELAS


Quando alguém passa muito tempo longe do lugar onde viveu seus primeiros anos, na memória, as lembranças, e com elas os personagens vão se embaralhando no decorrer da vida. Nunca, afora uns privilegiados, temos certeza daqueles fatos (?) e acontecimentos que acreditamos lembrar. Por esse motivo é, quando vier a escrevê-las, minhas memórias terão como titulo: “Memórias Descompromissadas”. Penso que assim ninguém poderá me acusar de criar, ou falsear, acontecimentos perdidos lá no passado.
Mais difícil do que tudo é lembrar o nome de pessoas que cruzaram nosso caminho mesmo quando tiveram participação ativa em nossa vida. É um tal de misturar nomes e sobrenomes que não acaba nunca ocasionando assim o receio de cometer injustiças e provocar constrangimento aos personagens ou, o que é pior, aos seus familiares e descendentes. Por essa razão busco sempre me limitar aos fatos, o melhor, cinematograficamente, às ações, evitando sempre houver dúvidas, nominar os personagens.
E foi essa técnica, ou malandragem, que fez de Mario Pinto uma das personagens mais marcantes do filme “Memórias do Cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos. Quando se começou a escrever o roteiro o diretor se deu conta de que seria inviável colocar num filme todos os personagens existentes no livro. Daí veio a idéia de concentrar todas as ações de personagens com as mesmas características em um único. Separamos em blocos todos os nominados na obra literária – mulheres do povo, granfinas, militares, revolucionários, políticos, jornalistas, agitadores, malandros, presos comuns, presos políticos, etc. Uma fez feito isso reunimos todas as ações de cada categoria e criamos um personagem fictício para vivê-las. Somente foram respeitados os personagens históricos e os malandros da Ilha Grande.
Para esses novos personagens, por serem fictícios, tivemos de rebatizá-los e coube a mim essa tarefa. Como no meio artístico diz-se que se perde o amigo, mas não a piada, quando chegou a vez dos militares comunistas, só de molecagem, chamei-os pelos nomes de colegas militares da ativa. Brincadeirinha... E o melhor foi que pouca gente notou a molecagem. Quando tocou reunir num só todos os jornalistas e radialistas presos na Ilha Grande foi a oportunidade de homenagear o mais tradicional locutor da ZYZ-6 – Rádio Charrua de Uruguaiana: Mario Pinto.
O Mario Pinto cinematográfico foi brilhantemente vivido pelo ator José Dumont numa interpretação maravilhosa até hoje lembrada por todos que viram o filme... Coisa de louco!
Já os marginais da colônia penal da Ilha Grande, em respeito à malandragem ficaram no cinema com os mesmos nomes que tinham no livro.
Talvez esse respeito, ou curiosidade, com os esquecidos da sorte explique porque de quando lembramos fatos muito remotos sempre nos vem à mente tipos e figuras populares. Quem de Uruguaiana se esquece de Pepe Caravana – Canoa? ...Tempero? ...Osvaldo Sorveteiro? Don Tuco – o carroceiro? ...Carancho? ...o Legendário? ...o Selo-de-Saude? ...o Changueiro? ...o Jujeiro? ...o Marechal Chagas?... E tantos outros que aos poucos irão se apresentando nessas minhas memórias ditas descompromissadas.
...E quem não se enquadrar nesta definição, espere. Sua vez há de chegar...

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