2 de ago de 2009

CRAQUE, EU?

Revirar fotos antigas é sempre uma fonte de reciclagem de recordações e incubadora de novas idéias. Quer dizer, não tão novas assim já que não são mais do que lembranças. Isso é o que acontece quando abro o meu baú de “recuerdos”.
E lá estou eu e minha turma do Júlio de Castilhos de 1950 (ou seria 51?) numa excursão estudantil, de trem é claro!, a Uruguaiana. As fotos são pequenas e às vezes fora de foco, mas dá para nelas reconhecer alguns dos excursionistas. Vejo lá o Jorge Teixeira, que depois seria conceituado médico em Porto Alegre, o Abraão Tessler, agora também médico e que, não sei por que, não é mais conhecido por esse nome e sim por Abraão Primo. Entre alguns outros colegas de turma no colégio de quem não recordo os nomes, minha namoradinha daquele momento: Olenka Sobjzec, de quem nunca esqueci por ser judia e ter esse nome estranho. Minha mãe implicou com ela de cara. Não sei se por preconceito ou por ter ela um narizinho um tanto avantajado. Coisas de sogra...
Excursões estudantis naquele tempo eram muito comuns. A gente juntava durante os feriados prolongados um grupo da mesma escola, combinava competições com outras do interior e tratava de arrumar patrocínio do governo do estado para o transporte. Não estou certo, mas me parece que naquele então o secretario de transportes era o Brizola. E lá iam os bandos de futuros eleitores... A hospedagem ficava por conta da instituição de ensino visitada, nesse caso o nosso velho colégio União.
As competições, em si, nunca foram levadas muito a sério, já que tão somente serviam de desculpas para a viagem e os participantes raramente eram atletas de verdade. No nosso grupo, afora a turma do futebol, onde o Abraão e um primo do Jorge tinham alguma intimidade com a bola, só eu praticava atletismo em provas de velocidade no Internacional - meu sonho era um dia disputar 110m com barreiras numa Olimpíada. Sonho modesto...
Mesmo assim, audaciosamente, aceitamos alguns desafios unionitas. E o maior de todos: um jogo de futebol. Como a cancha do União era (não sei se depois melhorou) um pedregulho inclinado o prélio foi marcado para os Estádio Eurico Lara, do meu eterno desafeto, o Uruguaiana F.C. Como nada era oficial, o improviso campeava em tudo. Até nossas camisetas foram emprestadas (Não sei por quem... acho que pelo Sá Viana).
Como estávamos num feriado, o gramado só nos foi cedido pela manhã mas estava tudo em condições para uma verdadeira disputa futebolistica. Havia até árbitros cedidos pela Liga Uruguaianense de Futebol. Um luxo. E, pasmem, nas arquibancadas alguns nossos torcedores entusiasmados. Acho que eram alunos do colégio dos padres vizinho do estádio e adversário eterno do União.
Eu, até aquele momento, reconhecido perna-de-pau em toda a cidade estava lá só como incentivador dos meus colegas julianos.
Na véspera alguns dos nossos craques mais afoitos tinham dado uma “fugidinha” em busca de alguma aventura amorosa e, na hora de entrar em campo viu-se que só poderíamos contar com dez players. Pânico. Confusão. Desespero. Ainda no vestiário fui prontamente convocado para completar o time enquanto o titular não chegasse e avisei que não poderia permanecer em campo porque, à tarde, teria que competir numa prova de corrida. Aquilo foi uma grande mentira porque não havia nenhuma competição programada. Na emergência calcei umas chuteiras emprestadas e entrei em campo com a equipe.
Quando vi o time do União levei o maior susto. Eram todos uns marmanjos, jogadores de clubes da cidade entre os quais reconheci o sargento Bittencourt, beque; e Arsênio, goleiro ambos do Sá Viana clube do qual meu pai era diretor. Mesmo sob nossos protestos a turma do União manteve em campo seus marmanjos com desculpa de serem todos alunos do colégio.
Diante do inevitável resolvemos partir para o sacrifício. O primo do Jorge, sendo quem tinha melhor conhecimento tático do futebol, me chamou de lado e mandou que, tão logo fosse dada a saída do jogo, eu corresse para a ponta direita, onde ele iria colocar a bola, e de lá centrasse em direção à grande área.
A saída coube ao Julinho. O centro avante tocou a bola para o primo do Jorge que a enfiou num chute pelo alto, um passe longo na ponta direita. Na carreira deixei para trás meu marcador, o que foi fácil já que corrida era meu forte, e enquanto a bola descaia pensei: - Vou meter um centro no meio da área. Só pensei. Porque errei o chute acertando um violento sem-pulo na direção do gol. A redonda, caprichosamente, descreveu uma curva por cima do surpreso Arsênio entrando no ângulo direito do arco defendido por ele. Um golaço!!!
Enquanto o arqueiro ia até o fundo da rede buscar a caprichosa bola, tratei de achar uma desculpa para sair de campo. Por sorte logo chegou o atleta faltoso e, mesmo ante a insistência dos meus companheiros e de alguns incautos torcedores, tratei de escafeder-me.
Graças a isso, até hoje tem gente querendo entender como pude tornar-me um craque em tão pouco tempo longe de Uruguaiana.
Hoje passados tantos anos não me recordo do resultado final do jogo e nem se o gordinho Felice participou dele.

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